Ó da Guarda!


Desta partilha das águas
te enviarei peixes negros
e um coração ainda
vivo.
Calarás o segredo
da compra da terra negra
onde peixes e coração
nasçam novos e belos
como tu.
E quando o coração negro
fôr possuído, mutilado e assassinado
pelos peixes novos e belos
como tu,
calarás o segredo
da venda da terra.
Depois,
calarás os peixes da terra do segredo
como tu.
Novo e belo, devolverás o coração
negro,
como eu.


Américo Rodrigues: nasceu em Barracão, concelho da Guarda. É Poeta, cronista, actor e encenador. No âmbito da poesia sonora tem desenvolvido uma actividade plena de sucesso, tendo participado com frequência em diversas sessões poéticas quer em Portugal como no estrangeiro. É Director Artístico do Teatro Municipal da Guarda.


Dos números


Ontem, no noticiário da RTP2, cheguei a ter pena de Carvalho da Silva.


Escrita Criativa


O melhor curso de Escrita Criativa é a vida.


É bom não esquecer

Que faz hoje anos que Portugal mergulhou na mais longa ditadura que a Europa alguma vez conheceu. Embora o chamado Estado Novo só tenha sido implementado com a Constituição de 1933, foi a 28 de Maio de 1926 que tudo começou.

Programa de Festas

Mais logo, às 21h30m, no Auditório do Centro Cívico de Manteigas actua o Grupo Coral de Manteigas e o Grupo Coral de Alhos Vedros. A não perder! Depois, uma ida até à Casa da Árvore para um pouco de convívio.

O outro lado da noite

A poesia de Bojan Radašinović está entre a melhor que li nos últimos tempos, para não dizer anos. É uma poesia limpa, despojada de artificialismos. Tomei a liberdade de traduzir três poemas deste croata de 32 anos. Traduzi com base numa outra tradução (inglesa) existente, tradução essa que não posso afiançar ser de boa qualidade (como não posso afiançar que a minha tradução seja de boa qualidade) pois não domino a língua materna de Bojan Radašinović. Espero que gostem.


Se não sabias ficas a saber


«Pouca coisa nos consola. Muita coisa nos aflige»


Isidore Ducasse (Conde de Lautréamont), Os Cantos de Maldoror, V.N. de Famalicão: Quasi, 2004, p. 274.


Ó da Guarda!


Retrato

comecemos pela ternura das mãos
pela minúcia dos dedos
pelas magnólias verdes dos teus olhos castanhos

contemplemos todas as batalhas
efémeras que perdeste
e os arroios que então se abriram
na espessura do teu corpo
e a boca lavrada pela sede incessante
e a glória da voz em vitral lento

consideremos também o teu nome
e para ele haverá que achar metáforas
estrelas em céu de agosto

por fim busquemos no fundo
da memória a chave
para o texto que ainda não decifrámos
enquanto isso
a ninguém direi dos pássaros
que moram na tua cintura


Soledade Santos: nasceu em 1957 no Sabugal, Guarda. Participou na colectânea 4 Poetas da Net, Edições 7 Sílabas, 2002. Pode ser encontrada no blog Nocturno com Gatos.

Lí por aí

«A blogosfera é um bode expiatório e um alibi da imprensa que a cita indiscriminadamente para atirar boatos à cara de entrevistados e alimentar polémicas de merda.»

Lourenço Bray, em o nascer do sol

VPV


Há vários dias que ando a ler Esta Ditosa Pátria* de Vasco Pulido Valente (VPV), onde se encontram reunidos artigos por ele publicados entre 1990-1997. Segundo o próprio autor, os artigos neste livro reunidos são «uma crónica do “cavaquismo”, isto é, da mudança e da resistência à mudança num país longamente “atrasado”.». VPV é tido por muitos como um pessimista e um “velho do Restelo”, com tiques conservadores adquiridos em Oxford (onde se formou) e no seio da sua família endinheirada onde não faltavam criadas de servir à mesa, criadas de quarto e criadas de cozinha. É, para muitos, alvo a abater, especialmente para uma certa esquerda que nele vê o diabo em pessoa. Apesar de tudo aquilo que se diz de VPV existem duas características que nele me agradam: escreve muito bem em Português (essa língua que dizem de Camões, expressão essa com a qual nunca concordei), e faz-me pensar. Sim, VPV faz-me pensar. Quer se goste ou não do estilo, VPV obriga a pensar. Ou a favor ou contra, tanto faz. Mas somos obrigados a pensar. Se tal não fosse não se entenderia o fenómeno que é VPV. Se ele fosse um “cronista” inócuo (como há tantos por esse Portugal fora), ninguém comentaria aquilo que ele escreve. O pior (ou melhor?) é que ele, de uma ou outra maneira, acerta sempre no sítio que mais dói. E é isso que enfurece e atrapalha a maior parte das pessoas que lêem VPV. Portugal, esse país que aprendemos a conhecer nos manuais de História, está muito longe do Portugal que VPV nos dá a conhecer e nos obriga a pensar. E é urgente conhecer e pensar Portugal. Pois todo o “mal” está aí: poucos são os portugueses que realmente conhecem e pensam Portugal. E aqueles que o fazem são criticados e menosprezados. VPV, à sua maneira, faz exactamente isso: pensa Portugal. Quem o lê (voluntária ou involuntariamente, concordando ou não) é obrigado, também, a pensar Portugal. E ninguém lhe pode tirar esse mérito.


* Vasco Pulido Valente, Esta Ditosa Pátria, Lisboa: Relógio D’Água, 1ª edição, 1997, 381 pp.


Parabéns


Hoje o Insónia faz dois anos. Como diz o Henrique: saúde!


To be or not to be funny


No outro dia, numa aula de Língua Inglesa, estava a ensinar o Simple Past do verbo “to be” e deparo-me com este exemplo no manual:


«Kate wasn´t funny. She was fat.”

Samurai

Embora se descubram tarde, há autores que se entranham na pele. Yukio Mishima é um deles. Comecei a lê-lo pela primeira vez este fim-de-semana passado. Uma colectânea de contos editados pela Editorial Estampa: Morte no Verão. São uns contos muito bem escritos: secos, duros, directos. Yukio Mishima passará a ser muito cá da casa.


Aceitam-se propostas


Vamos imaginar que António Lobo Antunes tinha um blog. Que nome lhe dava?



Pollock

Summertime, Jackson Pollock

Jackson Pollock é o meu pintor. A primeira vez que vi um quadro dele num livro de História fiquei fascinado. Durante muito tempo tive pena de não poder ver um quadro dele ao vivo e a cores. Há três anos tive essa oportunidade. Foi na Tate Modern, Londres. Finalmente consegui sentir o cheiro dos seus quadros. Uma pessoa que ia comigo perguntou-me a razão pela qual ele era o meu pintor. Não soube responder a essa pessoa. Ainda hoje não conheço e não sei a razão. Nunca me foi fácil explicar as razões que me levam a gostar de algo ou alguém.


Às vezes apetece perguntar


Quem pensa que se deve continuar, coloque o dedo no ar.

Ó da Guarda!

Um outro assunto isento
queria aqui deixar.
Por exemplo.
Levanto-me cedo, tomo o pequeno almoço
fumo um cigarro, ou quantos?

Depois de pronta desço
das escadas os três lanços.
E logo em baixo café, tabaco, jornais.
Inusitado no poema –
queriam um lírio, uma açucena –
e não coisas tão banais?

Helga Moreira: nasceu em Quadrazais, Guarda. Publicou Cantos do Silêncio (1978), Fogo Suspenso (1980), Quem não vier do sul (1983), Aromas (1985), Os Dias Todos Assim (1996), Desrazões (2002), Tumulto (2003), Agora que falamos de morrer (2006). Poesia sua encontra-se publicada em revistas — Serpente, Colagem, Os Poetas do Café, Hífen, etc. — e volumes colectivos: A Jovem Poesia Portuguesa-I (1979) e Amor Luxúria & Morte (1987). Encontra-se ainda representada em Vozes e Olhares no Feminino (2001, org. Isabel Pires de Lima). Vive no Porto.

Ó da Guarda!

Inverno

Que dia tão cinzento... A aragem passa...
Há névoa por toda a natureza...
O frio corta e a chuva, na vidraça,
Anuncia o Inverno e a tristeza...

Também à minha vida longa e baça
Chegou o inverno... O fim da realeza!
E no fundo da linha e boa taça
As fezes da amargura, da tristeza...

Tristeza de não ter mais alegria,
De não ser mais e mais o que devia,
O anjo que sonhei, dentro de mim...

E é tão grande o mal em mim, Senhor!
Mas é muito maior o Vosso Amor
E a Vossa mis' ricórdia não tem fim!


João Baptista Isabel (1903-1984): nasceu na vila de Manteigas. Fez o curso liceal na cidade da Guarda, partindo depois para Lisboa, onde se licenciou em Medicina. Médico de profissão, exerceu essa função na sua terra natal. Publicou: Estela (1918), Quando a neve cai (1961), Cântico da Montanha (1977) e Mare Nostrum (1984) - poesia; Contos Serranos (obra póstuma publicada em 1988) - conto.

Por falar em Limbo

Agora os escritores vão ter grandes problemas. Por exemplo um poeta: procura uma imagem para o deserto, para a corda-bamba, e não pode utilizar Limbo, pois deixou de existir. Nunca mais pode dizer: estou no limbo da minha existência. Limbo? O que é isso? Vendo bem a Igreja Católica não remediou nada. Veio foi criar um problema a quem escreve e faz disso vida.

Sono


Pode não parecer mas ando nisto dos blogs desde 2003, altura em que “fundei” o pedra no charco, blog inócuo de apedrejamento político. Ainda em 2003 fundei o Limites de Luz, blog inócuo de poesia/prosa e que foi extinto no dia em que fez um ano. Depois, foi o limbo (ups! e agora como é que digo isto?). Até que decidi criar este e o Versões. O que eu queria mesmo dizer é que começo a sentir um afrouxamento neste fenómeno. Cada vez mais sinto que há cada vez menos gente a escrever com vontade e motivação. Cada vez há menos vontade de aqui voltar. Mas hoje estou cheio de sono e talvez este post seja uma consequência disso.

Ó da Guarda!

Agora É

Agora é diferente
Tenho o teu nome o teu cheiro
A minha roupa de repente
ficou com o teu cheiro

Agora estamos misturados
No meio de nós já não cabe o amor
Já não arranjamos
lugar para o amor

Já não arranjamos vagar
para o amor agora
isto vai devagar
isto agora demora

Manuel António Pina: nasceu no Sabugal em 1943. Poeta e autor de livros infantis, é licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra. É jornalista profissional no Jornal de Notícias (Porto), onde tem desempenhado funções de editor. Recebeu até hoje diversos prémios literários. O seu primeiro livro de poesia, Ainda Não é o Fim nem o Princípio do Mundo Calma é Apenas um Pouco Tarde, foi publicado em 1974. Em 2001 reuniu a sua poesia em Poesia Reunida, Assírio & Alvim.


Tema antigo


É necessária uma linguagem que doa nos dentes.


Vivam os Reis!

No âmbito das comemorações do centésimo aniversário do Sanatório (inaugurado em Maio de 1907), o Hospital Sousa Martins encomendou ao Teatro Municipal da Guarda um espectáculo de evocação histórica da inauguração. Assim, no próximo dia 19 de Maio de 2007, pelas 10.00 horas, será realizada uma evocação da inauguração do Sanatório, que em 1907 contou com a presença dos Reis de Portugal, a Rainha D.ª Amélia e o Rei D. Carlos. Sob a coordenação geral de Américo Rodrigues, Director do TMG, a evocação será baseada em textos de António Godinho e de Hélder Sequeira (que também é consultor histórico desta produção). O espectáculo inicia-se na Estação de Caminhos de Ferro, com a chegada do Casal Real. Será depois feito um percurso desde a Estação da Guarda, pela Dorna, Rua 31 de Janeiro, Praça Velha, Rua do Comércio, passando pelo Largo da Igreja da Misericórdia, e seguindo então até ao Sanatório.

O Mistério

«Escrevo porque antes de mim outros também o fizeram. Não deixa de ser um gesto mimético. O verdadeiro mistério está no autor que pela primeira vez escreveu.»


Enrique Vila-Matas, em Jornal de Letras, nº 995, de 9 a 22 de Maio de 2007, p. 15.


Acaso


Um dia li que os termos aplicados hoje para definir, em política, de que lado é que estamos (esquerda e direita), tiveram a sua origem na Revolução Francesa, quando em Assembleia os mais conservadores se sentavam do lado direito e os mais progressistas se sentavam do lado esquerdo. Acaso tivesse acontecido o oposto, hoje teríamos conservadores de esquerda e progressistas de direita. Isto tudo para dizer o quê: que pouco importam alguns nomes, principalmente quando, na realidade, significam a mesma coisa.


Palavras de que gosto #8


- Sabes como se chama um burro de perna engessada?
- Não!!
- Burgesso!


Palavras de que gosto #7


Fia-te na Virgem e não corras!


Ó da Guarda!

Aos Políticos

Vocês, os poderosos
que governais,
podíeis fazer melhor,
mas aos pobres não ligais!

Ora descei cá para baixo,
Saboreai o pior;
Entregai essas pastinhas,
A quem governe melhor.


Joaquim Chamisso (1886 - ?): nasceu em Porcas, hoje Vale de Estrela. Analfabeto, escreveu versos à sua terra, a familiares, a políticos, a pessoas consideradas e a estudantes, razão pela qual os seus versos não seriam esquecidos.


Micro #33


Num funeral observa-se o defunto:
- Está com muita boa cor.
- Sim. E a gravata combina com a camisa.
- E com as meias.
- Que combinam com os sapatos.
- Que é pena não estarem engraxados.
- Pois.


Micro #32

Tinha por hábito nunca se peidar junto da namorada. Uma vez, na tentativa de encolher um peido mais indisciplinado, borrou-se.

Micro #31

Dizia, muitas vezes, que o seu alimento eram as pequenas coisas da vida. Um dia, sem explicação, começou a emagrecer muito rapidamente.


10 Livros que Não Mudaram a Minha Vida

Toda a gente fala dos livros que mudaram as suas vidas. Fazem-se listas dos livros mais influentes. Eu decidi fazer uma lista dos 10 livros que não mudaram a minha vida, consciente do risco que corro, pois é quase impossível um livro não mudar a nossa vida. Mas mesmo assim ela aqui vai:

O Perfume, Patrick Süskind
Fernão Capelo Gaivota, Richard Bach
Uma Família Inglesa, Júlio Dinis
Esteiros, Soeiro Pereira Gomes
Cadernos de Lanzarote vol. 1 e 2, José Saramago
Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco
Vermelho, Mafalda Ivo Cruz
Amor, António Mega Ferreira
Le Silence de la Mer, Vercors
10º O Livro das Ilusões, Paul Auster




Ó da Guarda!


Alfa e Ómega

Eu sou o primeiro e último poeta.
A vida é ilimitada, não tem comportas
A separar o que de si é união essencial.
Eu sou o primeiro e último poeta.
Em mim falam os profetas,
Apostoliza Cristo
E se condensam as visões apocalípticas da última hora.
Eu sou o primeiro e último poeta.
Em vão tentareis fechar-me as portas,
Diminuir-me o estro ambicioso
E atirar-me pedradas surdas que eu não sinto.
Estou em cada minuto do dia
E em cada milénio da história.
Sou Cristo na ambição de tê-lo a falar por mim.
Sou eco de tudo o que se passa, a voz de tudo o que fica,
E, diluído como estou no Ser e nas coisas,
Mais não sou que um rastro vago de mim.


Vasco Miranda (1922-1976): pseudónimo de Arnaldo Cardoso Ferreira, natural da freguesia de Junça, concelho de Almeida, distrito da Guarda. Sacerdote católico, formou-se em Filosofia e Teologia pelo Seminário da Guarda, exercendo actividades paroquiais na freguesia de Mata Lobos, concelho de Figueira Castelo Rodrigo, e, mais tarde, a docência em Lisboa, no Colégio Manuel Bernardes. Encontra-se antologiado nas Líricas Portuguesas de Jorge de Sena, na Mão de Deus de José Régio e Alberto Serpa, na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa de E.M. Melo e Castro e Maria Alberta Menéres e na Antologia de la Nueva Poesia Portuguesa de Angel Crespo. Publicou: Luz na Sombra (1946); Alfa e Ómega (1951); A vida suspensa (1953); Dizer, Amar (de 1971 e que se trata de uma recolha de todos os livros do autor e mais um inédito).


Preguiça

O que me levou a ler Albert Cossery foi a informação da badana do livro: «uma frase por semana, um livro de 8 em 8 anos.» E também o facto de ser um profeta da preguiça. Isto tudo para dizer que nunca vi a preguiça como um pecado mortal. Sempre o vi mais como um luxo. Um luxo que só alguns têm a oportunidade de experimentar.

A ler

O novo livro de Eduardo Pitta chama-se Cidade Proibida. Ler aqui a pré-publicação.




Post it


É só para lembrar que a gasolina sem chumbo 95 está a 1.36 euros.


Hoje estou assim

um pouco como aqueles versos de Cesário Verde (tenho que te reler!):

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

só que não fumei três maços de cigarros, nem tão pouco um cigarro consecutivamente. E depois há ainda as alergias que decidiram vir hoje todas de uma só vez! E não estou armado dos meus bons amigos Telfast, só o velho e fiel Pulmicort Aqua está aqui para me auxiliar.

Ó da Guarda!

As perguntas

Não tem rosto, o Deus dos perplexos. Nem voz.
Nem arrependimento. Nem a alegria dos alegres
ou o medo da escuridão. Não posso dizer-vos como
se encontram os seus caminhos, se o melro poisa

nas hortas junto do rio, ao adivinhar a tempestade.
Deus predador, o nosso, prudente, interdito,
que desagrada ao canto mais simples. As nossas
pegadas ficam no deserto, aguardam a passagem

como um fantasma que se desprende da chuva.
Esta luz é incerta, balança sobre as varandas, ameaça
os dias, converte ou desarma todas as palavras certas,

todos os olhos abertos. Não tem rosto, o Deus dos
perplexos, não caminha nos precipícios, não arde
como a urze fitando o céu, não o comove a morte.

Francisco José Viegas: nasceu em Vila Nova de Foz Côa. Foi professor universitário e jornalista (nomeadamente director das revistas LER e Grande Reportagem). Actualmente é escritor e colaborador freelancer de vários jornais e revistas. É autor de diversos livros de poesia, de livros de viagem e de romances. Escreve no weblog A Origem das Espécies.


o amor é um cão do inferno



Dos rios


Há cidades que não podem ser nomeadas sem o rio que as atravessa.


Já senti isso, sim senhor


Às vezes o ar parece ser demasiado.


E já não é pouco


Nunca soube de mim; a não ser talvez nos livros.


Ok! Já sei o que estão a pensar


Noite de sábado!! Este gajo não tem vida social?


o amor é um cão do inferno


Ó da Guarda!

seres tu e eu água salgada
embriagada de azul

o ponto estratégico no horizonte
sem céu sem terra definidas

Susana Celina Augusto: nasceu na Guarda. Desloca o corpo na terra. Língua materna: franco-portuguesa (hispano-americana nos versos de Borges).

Estrelas

Deitava-se no terraço que também servia de telhado à casa. Não sabia qual a razão que o tinha levado a contar estrelas. Tudo tinha acontecido de um dia para o outro. Primeiro contava só até cem estrelas. Depois com o passar do tempo passou a contar até quinhentas. A melhor maneira (que era a que ele utilizava) de contar estrelas é colocar um pequeno quadrado feito de arame ou madeira por cima da cabeça. Assim podemos contar estrelas à vontade sem repetir aquelas que já foram contadas. Eu explico: o pequeno quadrado de arame ou madeira é colocado por cima do nosso corpo tendo em conta que estamos deitados depois é só contar as estrelas e mudar o pequeno quadrado para outro local onde recomeçamos a contar estrelas. Com esta técnica podemos contar até cinco mil estrelas numa só noite. Contar estrelas era essencial para ele e a noite na aldeia era perfeita. Não havia muita luz. E lá passava as noites a contar estrelas até ao dia em que foi para a cidade. A cidade que tinha muita luz e onde não conseguia contar estrelas. Também não tinha um terraço onde se deitar pois agora vivia num apartamento pequeno que só tinha dois quartos e uma sala pequeníssima e algo parecido com uma cozinha mas a que davam o nome de kit-qualquer-coisa. Também acreditava que a cidade não tinha estrelas pois era feia e só as coisas bonitas como a aldeia é que têm direito a ter estrelas. Visto não poder contar estrelas decidiu começar a contar pessoas. Começava e nunca acabava. Era muito difícil contá-las e não podia utilizar a técnica do pequeno quadrado. Passou a contar carros. Aguentou-se uma semana. O que ele queria era mesmo contar estrelas. Um dia os pais decidiram ir ao parque da cidade. Ele também foi pois já estava farto de fazer todos os dias a mesma coisa: casa-autocarro-escola-escola-autocarro-casa. O parque era um dos poucos locais (se não o único) onde existiam árvores. E não havia barulho. Nem carros. Nem qualquer espécie de candeeiros. Logo não há luz artificial. Não havendo já se podem contar estrelas. Uma noite: em que os pais estavam mais cansados e se tinham deitado mais cedo: ele pegou no seu pequeno quadrado e partiu para o parque. Estava escuro. Não se via ninguém. Procurou o local com menos árvores e deitou-se. Colocou-o por cima da cabeça. Lá estavam elas. Começou. Contou mil em meia-hora. Mais mil. E depois voltou para casa. Feliz.

Manteigas, 2000


Ó da Guarda!


Beijo cantado


Meus lábios só cantam
quando não podem beijar.
Mas quando eu beijo o teu canto,
tu escutas o meu canto nesse beijo,
no meu beijo, teu encanto,
na volúpia de uma carícia
só tua!
Que importa
se lá fora
escutam nosso arrufo,
o nosso canto…
Cantemos forte
e assim se ouvirá o nosso encanto
nas ondas da melodia,
nesse recanto de rua!
E mesmo que outras vezes
se oiça o pranto,
será grito de saudade
minha
e tua!
Se enquanto choro não canto,
posso beijar a chorar;
deixa a alma atravessar
o deserto, e respirar
a esperança que vai dar
cor as águas do meu pranto.
Do choro se fará canto,
lá no canto do desejo,
e no quente do teu manto
choro e canto,
canto e beijo!


João S Martins: nasceu em Manteigas. Saltou de pedra em pedra entre a pintura e a música, da fotografia à poesia, sempre imbuído da paixão pela palavra e imagem. Utiliza as duas com prazer rebuscando coisas novas e antigas no arquivo de memórias. Reside em New Jersey, USA, desde 1987. Publicou: Exercício de Pintura (2001), Intervalo das Palavras (2004), Cânticos Paralelos (2004) - poesia; A Estrelinha da Serra e outras Histórias para Estrelas de todas as idades (2001) - contos.

Publicado em 1928, mas actual como o caraças!

«Porque nos nossos dias já não há ideias, são tão raras como a sífilis, e no entanto, sem que ninguém o diga, há os preconceitos, e desta feita bem preconcebidos, autênticas lambadas a toda a espécie de bom senso.»

Louis Aragon, Tratado do Estilo, Lisboa: Antígona, 1ª edição, 1995, p. 33.

O Tempo e a Serra


Publicado em 1997, Voo no Vazio é uma colagem de textos de carácter intimista, em forma de diário fragmentado, sem qualquer preocupação de ser estabelecido um fio condutor que lhe tente dar uma homogeneidade na forma e na mensagem, onde existem reflexões fortes sobre esses eternos temas: Vida, Morte, Tempo, Homem, Deus. Em Voo no Vazio podemos encontrar essa meditação interrogante e existencial, criadora da angústia e do vazio, tornando-se em marcas de um quase sem sentido da vida, através de uma escrita pungente e, por vezes, poética. Destaque para o desembrulhar de muitas lembranças, imagens e intimismos no cenário repetidamente invocado da Serra, onde o autor regressa, como quem regressa ao útero materno. Voo no Vazio encontra-se impregnado das águas das nascentes da Serra, das cores desse Vale do Zêzere, dos cheiros da terra quando chove, das emoções fortes dos primeiros amores e das despedidas. A escrita de José Duarte Saraiva é herdeira de uma certa família existencialista onde podemos encontrar nomes como o de Albert Camus, Milan Kundera e Vergílio Ferreira. O próprio título é disso revelador: o vazio é o ponto de partida para uma série de reflexões e meditações, que tem como principal função interrogar, pois o autor traz em si a força de interrogar, mais do que a força da pergunta. Mas o que leva o autor a interrogar-se? Existe em si uma sedução pela «ilusão do voo no escuro da memória, o vazio inútil que de mim sobrou» (p. 7). É esse voo no escuro da memória que leva muitas vezes o autor a sentir o peso do tempo, sabendo que este não poderá nunca voltar atrás. O tempo torna-se, assim, num sinal da nossa (sua) finitude, daquilo que se é mas que não se quer ser. É esta, também, uma das questões que José Duarte Saraiva levanta: como dominar o tempo? Talvez com a ajuda da Serra, essa figura mística e materna. Apesar desta tentativa em dominar o tempo, o autor tem consciência que essa vivência de eternidade acontece sempre num fundo de finitude, que é o local onde tudo realmente acontece, onde o homem que foi sendo se pensou e tentou cumprir-se. É devido a essa entrega ao domínio do tempo, que o próprio tempo passa rápido de mais e sem qualquer hipótese de retorno, a não ser através da memória: «Jazo à sombra tépida do jardim das tílias onde chilreiam pássaros. Relembro a tua pele morena em corpo pequeno, a concha suada da mãos, o olhar agitado, com medo de que o teu pai nos visse. O perfume do jardim das tílias, o vulto plúmbeo da Estrela ao longe, o açúcar liquefeito dos teus lábios no primeiro beijo. Nunca mais!» (p. 8). O tempo é, assim, o principal responsável pela angústia existente em José Duarte Saraiva. Ele sabe que não lhe pode escapar. No entanto, não nasce no autor um sentimento de revolta. Pelo contrário, o autor, em certa medida, acomoda-se ao seu destino. A consciência que José Duarte Saraiva tem da força que a máquina do tempo exerce sobre si, enquanto homem e ser finito, é avassaladora. O autor sabe que não pode escapar. É desta tensão existente, entre a consciência do tempo e a impossibilidade de o combater, que a angústia de José Duarte Saraiva se faz sentir. Nada mais resta ao autor senão o vazio, pois só o vazio nos pertence: «Vazio foi o espaço do voo realizado, vazio será o horizonte do que falta voar. Viver – fôlego efémero do bater de asas, só.» (p. 67).

José Duarte Saraiva, Voo no Vazio, Lisboa: Europress, 1ª edição, 1997, 80 pp.


Micro #31


- Amo-te! Que queres mais?
- Que me ames.



Parafraseando o Technorati

339 posts: algum tem que ser bom (vá, razoável!).

A placa

Em Miranda do Corvo o Centro de Saúde tem uma placa comemorativa que diz mais ao menos isto: «Construído com a ajuda do povo dos Estados Unidos da América». Muitas vezes pensei: quantos Centros de Saúde haverá no Iraque com uma placa semelhante?


Pouco ou nada


Se pode escrever num dia em que a chuva insiste em cair.


5000

No dia 30 de Abril às 10:54:39, alguém com o IP 201.51.152.# (Telemar Norte Leste S.A.), situado no Rio de Janeiro, Brasil, foi o visitante número 5000. Chegou até aqui através de uma pesquisa no Google: a mulher mais linda da cidade charles bukowski. A ele/ela o meu muito obrigado. E também a todos os outros que aqui chegam todos os dias.