Eleições

Hoje na escola há eleições para a Assembleia de Escola. Eu não voto. Aconselham-me a votar. Explicação: vai votar pois depois o teu nome não fica lá como votante e são as pessoas da Assembleia de Escola que depois vão fazer parte das comissões de avaliação dos professores e depois como tu não votaste ainda te lixam a vida. Depois de saber isto, concluo: agora é que não voto mesmo.

Hoje aqui está a chover. E aí?

Disse aqui que sou professor. Mas ainda não disse que gosto daquilo que faço. Como professor contratado que sou mudo de escola todos os anos: Pampilhosa da Serra (horário completo), Tábua (horário completo), Silves (horário incompleto), Miranda do Corvo (horário incompleto), Caxias (horário completo), e este ano Figueira da Foz (horário incompleto). Todos os anos, chegada a hora, lá carrego o carro e vou para onde me mandam, contente por ir trabalhar. Lembro-me que um dia estava em Silves (escola que mais saudades me deixou e onde fiz dois bons amigos: o António e o Manuel) sentado no sofá em casa e ouvi a notícia: 500 mil desempregados: e olhei à minha volta e pensei: sou um gajo com sorte. Este ano continuo a ser um gajo com sorte. E dou graças por isso. Já agora: quando é a feira do livro em Lisboa?

Lí por aí

«A realidade ultrapassa a ficção, pela faixa da direita, sobre o risco contínuo, num acesso em contramão para a auto-estrada.Só para ludibriar a Via Verde.»

José Eduardo Lopes, em Estrada de Santiago


Micro #30


- Como podes estar tão seguro daquilo que estás a dizer?
- Ora essa! Li num blog!!


Micro #29


- Gostava de saber tudo aquilo que me vai acontecer.
- Para quê?
- Para depois me esquecer.


Micro #28


- Não sei como podes acreditar nessas coisas!
- Que coisas?
- Nessas coisas em que acreditas.
- Mas... são só coisas!



Micro #27


- Gostava de me confessar, senhor padre.
- Muito bem, meu filho.
- Em primeiro lugar: não acredito na confissão.


Micro #26


- Como é ele na cama?
- Não sei. Fazemos amor sempre no chão.

Bukowski no Brasil

Vida desalmada. Florianópolis: Spectro, 2006
Essa loucura roubada que não desejo a ninguém a não ser a mim mesmo amém. Curitiba: 7 Letras, 2005.
Tempo de vôo para lugar algum. Florianópolis: Spectro, 2004.
Hino da Tormenta. Florianópolis: Spectro, 2003.
Os 25 Melhores Poemas de Charles Bukowski. Rio de Janeiro: Bertrand, 2003.
O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio. Porto Alegre: L&PM, 1999.
A mulher mais linda da cidade. Porto Alegre: L&PM, 1997. (coletânea)
Pulp. Porto Alegre: L&PM, 1995.
Numa Fria. Porto Alegre: L&PM, 1993.
N.York, 95 cents ao dia. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos)
Delírios Cotidianos. Porto Alegre: L&PM, 1991 (quadrinhos)
Hollywood. Porto Alegre: L&PM, 1990.
Fabulário Geral do Delírio Cotidiano. Porto Alegre: L&PM, 1986.
Factotum. São Paulo: Brasiliense, 1985.
Notas de um velho safado. Porto Alegre: L&PM, 1985.
Misto quente. São Paulo: Brasiliense, 1984.
Crônica de um amor louco. Porto Alegre: L&PM, 1984.
Mulheres. São Paulo: Brasiliense, 1984.
Cartas na Rua. São Paulo: Brasiliense, 1983.


o amor é um cão do inferno


Nota: podem encontrar outra versão deste poema aqui.


Recordar é viver


(mito)

deixa a terra
incendiada pelo sopro
nas mãos sementes
profecias
nomes de luz
com os lábios une
o abismo entre
os corpos
e no olhar
guarda segredos
palavras de cal

em Entre o Silêncio e o Fogo, Guarda: Aquilo Teatro, 2002, p. 35.

Concordo contigo e deixo aqui a minha humilde opinião

Para mim a poesia é como os peidos: há de vários tipos. Há poesia que cheira mal e é aparatosa. Outra é aparatosa e não cheira mal e vice-versa. E ainda há aquela que tem algumas semelhanças com as anteriores, mas deixa marca.

Ay, there's the rub

Não ser capaz de ler todos os livros que gostaria de ler.


Micro #25


Sofria de uma depressão tão grande, que todos os dias eram quinta-feira negra.

Micro #24

Tinha o vício das colecções. Coleccionava até as unhas que cortava. O único problema era não haver ninguém com quem trocar as unhas repetidas.


Micro #23


Era uma pessoa cheia de êxito. Todos os dias tinha que tomar Eno para melhor o digerir.

Micro #22

Não tenho pai alcoólico, nem mãe castradora da minha identidade. Como posso querer ser escritor – perguntou o autor falhado ao seu editor.


o amor é um cão do inferno


Como homens, porra!

Kaye: So do we abandon ship or hope altogether?

Bukowski: Why these cliches, platitudes? OK, well, I would say no. We do not abandon ship. I say, as corny as it may sound, through the strength and spirit and fire and dare and gamble of a few men in a few ways we can save the carcass of humanity from drowning. No light goes out until it goes out. Let's fight as men, not rats. Period. No further addition.


Charles Bukowski Speaks Out By Arnold L. Kaye, Los Angeles Correspondent to the Chicago Literary Times. Published March, 1963


70 anos
Guernica - Pablo Picasso

Faz hoje 70 anos que ocorreu o bombardeamento à cidade basca de Guernica por parte da aviação alemã e italiana (a famosa Legião Condor) fiéis a Franco. Hoje, passados 70 anos, juntam-se na cidade basca representantes de várias outras cidades sujeitas a bombardeamentos: Hiroshima, Nagasaki, Coventry, Dresden, Estalingrado, Berlim... para que nunca se esqueça.


Hoje fui à Feira


Louis Aragon, Tratado do Estilo, Lisboa: Antígona, 1995, pp. 183.
Norman Mailer, Um Sonho Americano, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 268.
Albert Cossery, A Casa da Morte Certa, Lisboa: Antígona, 2001, pp.187.
Hanif Kureishi, O Corpo, Lisboa: Teorema, 2003, pp. 310.


Nota: foram "gastos" 20 euros.




Neste dia


Há outro texto que deve ser lido


Neste dia


Há um texto que deve ser lido.

Dêem-nos tempo

Sábado casou-se mais um amigo. Aproveitei para reencontrar outros. Vendo bem as coisas nem estamos mal de todo para quem já esta na casa dos trinta: não temos muita barriga, ainda temos cabelo (uns mais que outros). Mas dêem-nos tempo. Sim, dêem-nos tempo.


Lí por aí


«Nunca escrevia no próprio dia: um ardil primário para fintar a morte.»


José Mário Silva, em A Invenção de Morel


Acordei assim


Hoje acordei como se fosse um dos piores poemas de Bukowski.

Pescadores

Quando o tempo muda podes encontrá-los na pequena praça. Vestem fato de treino, calçam chinelos. Esperam que o mar acalme. Muitas vezes juntam-se a eles alguns mais velhos, que deixaram a faina há muito tempo. Quando a chuva aperta, abrigam-se debaixo das árvores, costas com costas. Os mais velhos, por vezes, parece que esboçam um sorriso, como se estivessem outra vez no barco e este os levasse para o mar.

publicado na Revista Minguante nº 4



o amor é um cão do inferno


Sempre em pé

Vi ontem o 2º programa. Dizer que não gostei é pouco. Exagerado como hoje estou, posso dizer que o considerei muito mau.

300

Fui ontem ver o filme. Posso estar a exagerar, mas só me lembro de um adjectivo para o caracterizar: poético.

Que porra de país é este?

Esta questão há muito que deixou de fazer sentido (pelo menos para mim). A resposta é simples: é um país de merdinha, que nem capacidade tem para ser de merda. Vem este meu desabafo devido a esta notícia. E andam estes gajos a pregar moralidade e a dizer o que deve ou não ser feito! Por amor dos deuses! Não há paciência para isto! Não gosto de política, não quero fazer política, e não quero política aqui. Mas o que li revoltou-me, principalmente por uma razão: sou professor. Andam estes gajos a exigir isto e aquilo ao pessoal, cortam aqui e ali, fazem trinta por uma linha, o Sócrates vem dizer que eu ainda não sou professor mas sim uma pessoa com habilitação para sê-lo (só pelo simples facto de ainda não estar no quadro, logo não estou na carreira, logo ainda não sou professor), e depois um gajo ainda tem que engolir sapos destes. Porra, pá! Assim não dá!!


O regresso


E que bom regresso!

Ah pois é!

«Estranhamente, quando os desconstrucionistas precisavam de uma apendicectomia ou de um bypass ou mesmo de fazer uma abertura de canais, nunca desconstruíam a «verdade» médica ou dentária, alinhando, ao invés, com o que os clínicos acreditados pela Ordem e motivados pelo lucro proclamavam ser a última palavra.»

Tom Wolfe, Hooking Up - Um Mundo Americano, Lisboa: Publicações
Dom Quixote, 1ª edição 2202, p. 19.

Micro #21

Às cinco horas a batalha terminou. Era a hora do chá. Até a barbárie tem limites: disse o general: afinal somos todos pessoas civilizadas.


Micro #20


E partiu, como se nunca tivesse regressado.



Micro #19


Começava todas as semanas da mesma maneira: desejando que fosse sexta-feira.

BMW


Bukowski tinha um fascínio pela marca BMW. Teve vários carros dessa marca. Pagava-os a pronto. Isto vem a propósito da maneira como ele ganhava a vida. Teve durante vários anos um emprego estável nos correios Norte-Americanos. Depois, largou esse emprego e dedicou-se exclusivamente à literatura, ganhando dinheiro com a publicação dos seus livros, com as várias palestras e “recitais” pelas Universidades, mas também em bares. Num desses “recitais” num bar, Bukowski disse: «You can have my soul, but I have your money». Eu acrescentaria: «and a BMW».


Micro #18


- Respondes sempre com uma pergunta!
- O que te leva a dizer isso?


Micro #17


Apetecia-lhe mudar de nome. Tendo em conta a vida que levava, K. parece-lhe uma boa escolha.



Micro #16


Anjos só conhecia os de Rilke. Até ao dia em que a viu pela primeira vez.



Todas as esperanças


Todas as esperanças que tenho nos Homens desaparecem quando vejo os telejornais.


Lí por aí

«não sei se o bife que almocei hoje vinha de vaca com canudo mas pelo menos era muitíssimo competente na área do paladar.»

Pedro Vieira, em irmaolucia

Ó da Guarda!

BIRIBI WO SORO


fugiram de mim
as paisagens
de tanto as olhar:

quer-nos a luz
para o chamamento
dos poços.


nos espelhos
agora soltos
meus dedos são marinheiros bêbedos

António Godinho: nasceu na Guarda, terra onde ainda vive. É advogado. Tem livros de poesia e teatro publicados. É co-director da revista Boca de Incêndio. Pode ser encontrado aqui.


Lixo? Vida, meus amigos, vida


Numa das muitas biografias de Charles Bukowski que circulam pela net, há quem diga que ele transformou o lixo em arte, pois era sobre lixo que ele escrevia. Lixo, subentende-se, é sinónimo de: álcool, sexo, ressacas, bebedeiras, libertinagem, e afins. Para mim ele escreveu sobre a vida. A pura e mais simples vida. A de todos os dias. Com os seus altos e baixos. Com as suas coisas más e boas. A vida tal e qual ela é. Nem mais, nem menos. Bom, ok, talvez um pouco mais regada do que é habitual! Mas foi sobre ela que ele escreveu. Como disse Kurt Vonnegut: «Life is no way to treat an animal». Julgo que Bukowski também pensava assim. E tentou sobreviver-lhe da melhor maneira que conseguiu.


Sábio Pança


Sou como Sancho Pança: «não acredito nas bruxas, mas que elas existem, existem.» (citado de memória).


Reflexo condicionado


Andar a correr na marginal e acelarar o passo cada vez que se aproxima uma rapariga e pensar que a impressiono.


O tempo


Os alunos têm andado pasmados como o tempo.


Kurt Vonnegut

1922-2007

Ai o amor, o amor...

«He watched the clouds: dark swift horses surging up the sky. A black storm breaking out of its season! That was what love was like, he thought; (...)»

Malcolm Lowry, Under the Volcano, New York: Harper & Row, 1st edition, 2000, pp. 10-11.

Ó da Guarda!

Espantalhos

De momento, a regra subverteu-se. Sabia-se à partida que era assim: de manhã as aves acordam, tinham celeiros prontos para a gula, e todo dia vadiavam pelos campos, catando-se e sorrindo, fazendo amor e greves, bebendo água limpa nos outeiros. Depois, o enigma dos sonhos liquefez-se, as manhãs na cama embaciaram, o azul da janela suicidou-se, e as avaes doentes sucumbiram à sedução feroz dos espantalhos.


José Duarte Saraiva: nasceu em Manteigas em 1945. É licenciado em Filosofia. Publicou: O Real e as Estátuas (1979), Silêncio de Sombras Tatuado (1983), A Cratera dos Mitos (1987), Voo no Vazio (1997), (meu) Ser (da) Noite (2000).


Vou trabalhar para isso


Quero ter uma barriga como a da Nelly Furtado.


Palavras de que gosto #6


És mesmo escatológico!


Estes últimos dias foram patrocinados por:




O outro lado da noite


Errata

A folhear a Periférica nº 2 deparo-me com uma crítica de Helena Barbas a Correios de Charles Bukowski. E fico a saber que afinal já existe (ou existiu) um livro de poemas de Bukowski editado pela Hiena: Dá-me o teu amor: com edição de 1985. Todas as outras edições de Charles Bukowski em Portugal são aquelas que aqui foram mencionadas.


Micro #15


A capa do livro dizia: «Vai onde te leva o coração». E se o coração o levasse a lugar nenhum?


Micro #14


Quando o médico lhe disse que tinha joanetes, ela pensou logo em aproveitar os saldos para renovar toda a sua colecção de sapatos.


Micro #13


Como sofria de bicos de papagaio, decidiu ensinar-lhes uma ou duas palavras.



Micro #12


De tão cansado que andava, esqueceu-se de descansar.



Micro #11


Quando o sol se pôs as sombras disseram: «Agora podemos descansar!»


Micro #10


- Empresta-me 10 euros.
- Já me deves 20!
- É para te pagar metade.



Micro #9


Era raro ver os seus vizinhos.




Micro #8


Nunca tinha pensado no assunto, até ao dia em que se viu confrontado com a situação.


Ó da Guarda!


Da verdadeira importância dos telejornais


Porque há noticiários de hora a hora
acreditamos que acontecem sempre coisas importantes
no mundo para nós.
E que tudo é tão importante.
Nem sempre acontecem coisas importantes.
Nem tudo é importante.
Um autocarro despenhou-se no Quénia.
É trágico, mas não é importante aqui, para mim,
agora.
Aliás, por mim até preferia não saber.
Para mim é importante, agora, aqui, ler as instruções
de preparação de um esparregado congelado de fabrico
francês.


Pedro Dias de Almeida: nasceu na Guarda há 32 anos. É jornalista na revista Visão desde 1994. Publicou em 2002, com edição do Aquilo Teatro, o livro Introdução à Anatomia das Sereias e Outros Poemas.

No Bairro

Havia um miúdo no Bairro que um dia lhe chamou um nome feio. Ele, para defender a honra, chamou-lhe outro. A reposta não se fez esperar: um belo de um soco e um olho mais azul que outro.

publicado na Revista Minguante nº2

Lí por aí

«A prosápia balofa e uma espécie de afectação provinciana do "doutor" só existem porque a subserviência perante a pose, a ostentação e o "poder" ainda são realidades profundas no nosso país. Seja nas grandes cidades ou na província. Nas primeiras, o "doutor" é mais sofisticado,oculta melhor a sua arrogância e anda quase sempre próximo da enxúrdia da burocracia ou de bolsas de influência. Na segunda é genuinamente patético e não raro aprumando-se atrás de uma erudição saloia (...)»

António Godinho, em Boca de Incêndio



Talvez seja o lado menos conhecido de Charles Bukowski: o de artista plástico. O facto é que o homem pintou algumas coisas interessantes, embora continue a gostar mais dos seus poemas. No entanto, não deixa de ser curioso esta sua faceta. Aqui podem ver alguns dos seus trabalhos.



Da vida de todos os dias e não só



Escrever sobre estas Estórias Domésticas não é tarefa fácil, devido à dificuldade em enquadrá-las/inseri-las num determinado género: prosa, poesia, ensaio, confissão, memórias? De facto, o lugar apontado pelo autor parece o mais indicado: «um lugar entre as prosas e os poemas. Um lugar de problemas.». Dividido em quatro partes (Estes livros sem interesse, Mesas privadas e de vítima, Estórias domésticas e As favas contadas), o livro de Henrique Manuel Bento Fialho encerra em si uma escrita límpida, sem grandes maneirismos ou artefactos, o que a torna simples, directa e, acima de tudo, perturbante. Na primeira parte (Estes livros sem interesse) encontramos memórias da infância, repletas dessa magia que só a infância é capaz de nos dar, no entanto carregadas de algum pessimismo (característica unificadora de todo o livro, excepção feita à parte intitulada Estórias domésticas): «Quando íamos ao rosmaninho não pensávamos em feiticeiras queimadas, mas no próprio santo. Tudo mudou quando, ao saltar a fogueira, o Cachaça resvalou para a brasa e incendiou-se. Vi-lhe os dedos queimarem-se, as unhas derreterem-se como se fossem os cotos que iluminam o prazo da nossa esperança» (p.28). A segunda parte (Mesas privadas e de vítima), remete o leitor para «as memórias da traficância», onde o autor faz uso de uma linguagem poética forte, marcada por imagens desconcertantes: «Entram no bar como se fossem pedaços de carne a dar à boca» (p.62); «A mão esquerda mergulhada nas entranhas» (p.67); «Tinha a coluna decepada pelo vento» (p.70); «Crianças feitas de madrugada. Estátuas vivas. Junkies deitados nos bancos do jardim, marcados por facas espetadas no coração da pedra.» (p.75); «Vou querer um poema sem gelo. Que me bata de estalo o seu efeito espiralado» (p.82). O eu é sem dúvida o elemento principal destes pequenos poemas em prosa, mas não um eu indulgente para consigo, antes o oposto: consciente da sua insuficiência, que não procura o perdão, nem procura dá-lo. Na terceira parte do livro (Estórias domésticas), o autor abre as portas da sua casa, partilhando com o leitor as “crises” existenciais dos objectos que a habitam. São pequenas estórias, micro-narrativas, que se assemelham muitas vezes a aforismos e que têm em comum a ternura, o humor, a ironia: «Sempre que abrimos as janelas, as portas constipam-se» (p.100); «A filosofia da piaçaba: não se pode tomar banho duas vezes na mesma merda.» (p.102); «Quando se olhou ao espelho, o espelho ficou confuso. Não sabia se o principio de todas as coisas seria ele próprio ou o infinito.» (p.115); «A panela de pressão fez um bico ao fogão. Não satisfeito, o fogão atirou-se à chaleira. A colher de pau, invejosa, fez-se aos tachos e acusou o fogão de pedofilia. O mais certo é o processo vir a prescrever por falta de gás.» (p.125). A última parte (As favas contadas), gira em torno de uma personagem: Quitéria: «uma cigana aqui do bairro» (p.155). Quitéria é alguém que diz tudo o que tem a dizer, que faz tudo o que tem a fazer, sem olhar a normas, a convenções, a todas essas coisas que muitas vezes condicionam a nossa verdadeira maneira de agir. Quitéria é quem nós queremos ser (pelo menos alguns) e cuja falta de coragem impede de o ser. Quitéria é todos nós, só que livre: «Vi Quitéria na Segurança Social. Fui lá pagar dívidas de um futuro que não me aguarda. Voltei a vê-la, calada, na Junta de freguesia. Estava quieta, parada, indulgente e conformada com o novo guiché de comando electrónico. Mas, assim que soou o pim, Quitéria levantou-se, alçou a perna e deu-lhes com um pum! de sufocar azevinhos do pinhal. Fiquei-lhe grato pelo gesto, tudo o que eu desejaria ter feito e por quietude, indulgência, conformismo, educação, jamais farei.» (p.162). É connosco que ela nos confronta. É esta a lição que Quitéria nos ensina. São estas as estórias que Henrique Manuel Bento Fialho nos dá a conhecer.

Henrique Manuel Bento Fialho, Estórias Domésticas, Entroncamento: OVNI, 1ª edição, 2006, 169 pp.

É só um cheiro que por aí ainda anda, mais nada

«De facto, não há muito tempo existiu no Reino do Mexilhão um imperador que na ânsia de purificar as palavras acabou por ficar entrevado com a paralisia da mentira. Ainda lá está, dizem. E não é homem nem estátua porque a ele, sim, roubaram-lhe a morte. Não faz parte deste nosso mundo nem daquele para onde costumam ir os cadáveres, embora cheire terrivelmente. Quando muito é isso, um cheiro. Um fio de peste a alastrar por todas as vilas do império.»

José Cardoso Pires, Dinossauro Excelentissimo, Lisboa: Livraria Bertrand, 5ª edição, 1973.


Há noites assim


A de sábado está aqui.


Balanço e Agradecimentos

Segunda-feira passada criei o blog o amor é um cão do inferno, onde podem ser encontrados poemas de Charles Bukowski, por mim traduzidos. Estão disponíveis 15 poemas. Pretendo traduzir muitos mais. Como antes referi, não tenho formação na área da tradução: traduzo apenas pelo prazer de traduzir. Até ao momento o blog recebeu 197 visitas, algo que eu não esperava. Tal deveu-se ao facto de o blog ter sido referido aqui, aqui e aqui. O meu muito obrigado ao valter hugo mãe, ao Rui Manuel Amaral e ao António Godinho. No entanto, houve blogs que até nos linkaram. O meu muito obrigado: Henrique, menina limão, Santiago Santos.


Cumplicidade


Existe uma cumplicidade por explicar. Por definir. Talvez a mesma que existe entre os anjos.

Este é o teu corpo

O teu corpo invade-me com palavras que desconheço. Lá fora chove. Aqui, permanece apenas a sombra.


Criar criar criar !


Abominar toda a regra. Toda a excepção. Criar. Criar. Enlouquecer. Sim, enlouquecer. Mas criar.


Nunca parar


Procuro-te onde sei que não te encontrarei. Mas procuro-te na mesma. Talvez um dia te.

Um momento

Durante um momento o rio corre em sentido inverso. Leis, filósofos, matemáticos: fraudes. Tudo isto aconteceria por um momento. Só por um momento. Seria perfeito de mais.