Micro #30
- Como podes estar tão seguro daquilo que estás a dizer?
- Ora essa! Li num blog!!
Micro #29
- Gostava de saber tudo aquilo que me vai acontecer.
- Para quê?
- Para depois me esquecer.
Micro #28
- Não sei como podes acreditar nessas coisas!
- Que coisas?
- Nessas coisas em que acreditas.
- Mas... são só coisas!
Micro #27
- Gostava de me confessar, senhor padre.
- Muito bem, meu filho.
- Em primeiro lugar: não acredito na confissão.
Micro #26
- Como é ele na cama?
- Não sei. Fazemos amor sempre no chão.
Recordar é viver
(mito)
deixa a terra
incendiada pelo sopro
nas mãos sementes
profecias
nomes de luz
com os lábios une
o abismo entre
os corpos
e no olhar
guarda segredos
palavras de cal
Micro #25
Sofria de uma depressão tão grande, que todos os dias eram quinta-feira negra.
Micro #23
Era uma pessoa cheia de êxito. Todos os dias tinha que tomar Eno para melhor o digerir.
Bukowski: Why these cliches, platitudes? OK, well, I would say no. We do not abandon ship. I say, as corny as it may sound, through the strength and spirit and fire and dare and gamble of a few men in a few ways we can save the carcass of humanity from drowning. No light goes out until it goes out. Let's fight as men, not rats. Period. No further addition.
Charles Bukowski Speaks Out By Arnold L. Kaye, Los Angeles Correspondent to the Chicago Literary Times. Published March, 1963

Hoje fui à Feira
Louis Aragon, Tratado do Estilo, Lisboa: Antígona, 1995, pp. 183.
Norman Mailer, Um Sonho Americano, Lisboa: Livros do Brasil, 1988, pp. 268.
Albert Cossery, A Casa da Morte Certa, Lisboa: Antígona, 2001, pp.187.
Hanif Kureishi, O Corpo, Lisboa: Teorema, 2003, pp. 310.
Nota: foram "gastos" 20 euros.
Lí por aí
«Nunca escrevia no próprio dia: um ardil primário para fintar a morte.»
Acordei assim
O novo post
Ora ele aqui está.
É já a seguir
Para breve um novo post.
Quando o tempo muda podes encontrá-los na pequena praça. Vestem fato de treino, calçam chinelos. Esperam que o mar acalme. Muitas vezes juntam-se a eles alguns mais velhos, que deixaram a faina há muito tempo. Quando a chuva aperta, abrigam-se debaixo das árvores, costas com costas. Os mais velhos, por vezes, parece que esboçam um sorriso, como se estivessem outra vez no barco e este os levasse para o mar.
Micro #20
E partiu, como se nunca tivesse regressado.
Micro #19
Começava todas as semanas da mesma maneira: desejando que fosse sexta-feira.
Bukowski tinha um fascínio pela marca BMW. Teve vários carros dessa marca. Pagava-os a pronto. Isto vem a propósito da maneira como ele ganhava a vida. Teve durante vários anos um emprego estável nos correios Norte-Americanos. Depois, largou esse emprego e dedicou-se exclusivamente à literatura, ganhando dinheiro com a publicação dos seus livros, com as várias palestras e “recitais” pelas Universidades, mas também em bares. Num desses “recitais” num bar, Bukowski disse: «You can have my soul, but I have your money». Eu acrescentaria: «and a BMW».
Micro #18
- Respondes sempre com uma pergunta!
- O que te leva a dizer isso?
Micro #17
Micro #16
Anjos só conhecia os de Rilke. Até ao dia em que a viu pela primeira vez.
Todas as esperanças
Todas as esperanças que tenho nos Homens desaparecem quando vejo os telejornais.
fugiram de mim
as paisagens
de tanto as olhar:
quer-nos a luz
para o chamamento
dos poços.
nos espelhos
agora soltos
meus dedos são marinheiros bêbedos
Lixo? Vida, meus amigos, vida
Sábio Pança
Reflexo condicionado
O tempo
Vou trabalhar para isso
Quero ter uma barriga como a da Nelly Furtado.
Palavras de que gosto #6
És mesmo escatológico!
Estes últimos dias foram patrocinados por:
O outro lado da noite
Micro #15
Micro #14
Micro #13
Como sofria de bicos de papagaio, decidiu ensinar-lhes uma ou duas palavras.
Micro #12
De tão cansado que andava, esqueceu-se de descansar.
Micro #11
Quando o sol se pôs as sombras disseram: «Agora podemos descansar!»
Micro #10
- Empresta-me 10 euros.
- Já me deves 20!
- É para te pagar metade.
Micro #9
Era raro ver os seus vizinhos.
Micro #8
Nunca tinha pensado no assunto, até ao dia em que se viu confrontado com a situação.
Ó da Guarda!
Porque há noticiários de hora a hora
acreditamos que acontecem sempre coisas importantes
no mundo para nós.
E que tudo é tão importante.
Nem sempre acontecem coisas importantes.
Nem tudo é importante.
Um autocarro despenhou-se no Quénia.
É trágico, mas não é importante aqui, para mim,
agora.
Aliás, por mim até preferia não saber.
Para mim é importante, agora, aqui, ler as instruções
de preparação de um esparregado congelado de fabrico
francês.
Pedro Dias de Almeida: nasceu na Guarda há 32 anos. É jornalista na revista Visão desde 1994. Publicou em 2002, com edição do Aquilo Teatro, o livro Introdução à Anatomia das Sereias e Outros Poemas.

Talvez seja o lado menos conhecido de Charles Bukowski: o de artista plástico. O facto é que o homem pintou algumas coisas interessantes, embora continue a gostar mais dos seus poemas. No entanto, não deixa de ser curioso esta sua faceta. Aqui podem ver alguns dos seus trabalhos.
Da vida de todos os dias e não só
Escrever sobre estas Estórias Domésticas não é tarefa fácil, devido à dificuldade em enquadrá-las/inseri-las num determinado género: prosa, poesia, ensaio, confissão, memórias? De facto, o lugar apontado pelo autor parece o mais indicado: «um lugar entre as prosas e os poemas. Um lugar de problemas.». Dividido em quatro partes (Estes livros sem interesse, Mesas privadas e de vítima, Estórias domésticas e As favas contadas), o livro de Henrique Manuel Bento Fialho encerra em si uma escrita límpida, sem grandes maneirismos ou artefactos, o que a torna simples, directa e, acima de tudo, perturbante. Na primeira parte (Estes livros sem interesse) encontramos memórias da infância, repletas dessa magia que só a infância é capaz de nos dar, no entanto carregadas de algum pessimismo (característica unificadora de todo o livro, excepção feita à parte intitulada Estórias domésticas): «Quando íamos ao rosmaninho não pensávamos em feiticeiras queimadas, mas no próprio santo. Tudo mudou quando, ao saltar a fogueira, o Cachaça resvalou para a brasa e incendiou-se. Vi-lhe os dedos queimarem-se, as unhas derreterem-se como se fossem os cotos que iluminam o prazo da nossa esperança» (p.28). A segunda parte (Mesas privadas e de vítima), remete o leitor para «as memórias da traficância», onde o autor faz uso de uma linguagem poética forte, marcada por imagens desconcertantes: «Entram no bar como se fossem pedaços de carne a dar à boca» (p.62); «A mão esquerda mergulhada nas entranhas» (p.67); «Tinha a coluna decepada pelo vento» (p.70); «Crianças feitas de madrugada. Estátuas vivas. Junkies deitados nos bancos do jardim, marcados por facas espetadas no coração da pedra.» (p.75); «Vou querer um poema sem gelo. Que me bata de estalo o seu efeito espiralado» (p.82). O eu é sem dúvida o elemento principal destes pequenos poemas em prosa, mas não um eu indulgente para consigo, antes o oposto: consciente da sua insuficiência, que não procura o perdão, nem procura dá-lo. Na terceira parte do livro (Estórias domésticas), o autor abre as portas da sua casa, partilhando com o leitor as “crises” existenciais dos objectos que a habitam. São pequenas estórias, micro-narrativas, que se assemelham muitas vezes a aforismos e que têm em comum a ternura, o humor, a ironia: «Sempre que abrimos as janelas, as portas constipam-se» (p.100); «A filosofia da piaçaba: não se pode tomar banho duas vezes na mesma merda.» (p.102); «Quando se olhou ao espelho, o espelho ficou confuso. Não sabia se o principio de todas as coisas seria ele próprio ou o infinito.» (p.115); «A panela de pressão fez um bico ao fogão. Não satisfeito, o fogão atirou-se à chaleira. A colher de pau, invejosa, fez-se aos tachos e acusou o fogão de pedofilia. O mais certo é o processo vir a prescrever por falta de gás.» (p.125). A última parte (As favas contadas), gira em torno de uma personagem: Quitéria: «uma cigana aqui do bairro» (p.155). Quitéria é alguém que diz tudo o que tem a dizer, que faz tudo o que tem a fazer, sem olhar a normas, a convenções, a todas essas coisas que muitas vezes condicionam a nossa verdadeira maneira de agir. Quitéria é quem nós queremos ser (pelo menos alguns) e cuja falta de coragem impede de o ser. Quitéria é todos nós, só que livre: «Vi Quitéria na Segurança Social. Fui lá pagar dívidas de um futuro que não me aguarda. Voltei a vê-la, calada, na Junta de freguesia. Estava quieta, parada, indulgente e conformada com o novo guiché de comando electrónico. Mas, assim que soou o pim, Quitéria levantou-se, alçou a perna e deu-lhes com um pum! de sufocar azevinhos do pinhal. Fiquei-lhe grato pelo gesto, tudo o que eu desejaria ter feito e por quietude, indulgência, conformismo, educação, jamais farei.» (p.162). É connosco que ela nos confronta. É esta a lição que Quitéria nos ensina. São estas as estórias que Henrique Manuel Bento Fialho nos dá a conhecer.Henrique Manuel Bento Fialho, Estórias Domésticas, Entroncamento: OVNI, 1ª edição, 2006, 169 pp.
Cumplicidade
Criar criar criar !
Nunca parar
Procuro-te onde sei que não te encontrarei. Mas procuro-te na mesma. Talvez um dia te.
1922-2007