Numa estrada durante o PREC
Hoje e cada vez mais
«Hoje sou contra a defesa da liberdade humana, porque sou a favor da liberdade humana.»
Um dia têm que inventar...
...uma maneira de um gajo fazer a barba sem se cortar.
Murakami
Para a gaveta
Antes escrevia para a gaveta. Agora escrevo para o blog.
Um dia sem publicar
Revista A23
Um dia têm que inventar...
...calças que não façam foles nos joelhos.
Mónica Bellucci

Para mim o animal mais bonito à face da terra.
Dupla personalidade
Ora secretário-geral do partido ora primeiro-ministro.
Ora poeta/escritor/ensaísta ora administrador de um centro cultural.
Ora eurodeputado ora poeta.
Amigos em Conjunto
O espanto
Da simbiose literatura/existencialismo
Foi principalmente através da literatura que muitas das ideias do existencialismo encontraram o caminho perfeito para serem transmitidas. Dostoievsky é um bom exemplo. No livro Memórias do Subterrâneo, cria um anti-herói que se sente revoltado contra as pretensões optimistas do humanismo racionalista. A própria ideia de natureza humana, que surge nestas e em outras obras do autor russo, encontra-se corrompida pela perversidade e pela autodestruição, onde só o amor cristão pode salvar a humanidade de si mesma. Num outro plano, Kafka apresenta-nos o homem isolado, a enfrentar burocracias labirínticas e destruidoras, onde os temas como a angústia, culpa e solidão, são um reflexo da influência de Kierkegaard, Dostoievsky e Nietzsche. A influência de Nietzsche é também visível em alguns romances de André Malraux e nas obras de teatro de Sartre. Já Albert Camus explora o absurdo, a futilidade da existência e a necessidade de compromisso com uma causa justa. Encontramos, também, o reflexo de conflitos existênciais nas obras de teatro de Samuel Beckett e Eugene Ionesco. Mesmo nos Estados Unidos a influência do existencialismo pode ser sentida (apesar de uma maneira mais indirecta e difusa) nas obras de Walter Percy e John Updike, e vários temas existencialistas (individualismo moral, subjectividade, escolha e compromisso, horror e angústia) são evidentes nas obras de escritores como Norman Mailer, John Barth e Arthur Miller. Em Portugal o primeiro nome que surge é o de Vergílio Ferreira, que depois de uma experiência neo-realista se instalou definitivamente, com o romance Mudança, no campo da interrogação, na questão existencial. E não podemos esquecer autores como Raul Brandão (Húmus), Almeida Faria (Rumor Branco), Nuno Bragança (A Noite e o Riso), Herberto Helder, Antero de Quental, Fernado Pessoa, Camões, Bernardim Ribeiro. A simbiose é clara, tanto mais que a literatura e a filosofia partilham entre si a mesma preocupação, o mesmo desejo: a interrogação, o reinventar da vida e do mundo.
Certo dia, em amena cavaqueira no café cá do burgo, discutia-se a questão de qual o grupo que mais terá colaborado para o desenvolvimento do rock actual: The Velvet Underground ou The Doors. As opiniões dividiram-se. Argumentei que eram os Velvet Underground. Lembrei grupos como os Jesus and Mary Chain – em Psychocandy é evidente essa influência, desde as guitarras até à batida da bateria (embora o wall of sound fosse importando do álbum Pet Sounds dos Beach Boys); Sonic Youth – com o seu experimentalismo mais depurado; Yo La Tengo – tanto nas guitarras como nas pequenas baladas que muitas vezes lembram Sunday Morning ou I’ll be your Mirror; dEUS – que até assimilaram a viola (e não o violino, como erradamente se julga) de John Cale, especialmente na introdução de suds & soda, que muito lembra a parte instrumental de The Black Angel’s Death Song; Mogwai – com as suas longas e perturbantes composições lembrando European Son. Já em relação aos Doors sentenciei em tom provocador: sobreviveu mais o mito Jim Morrison do que propriamente a música. E penso que não fugi muito à verdade.
Programa de Festas
Hoje, no TMG às 21h30m, «A Cozinha Canibal» pelo grupo Projec~.
O golpe perfeito
O filme Capote veio despertar a curiosidade do público para o romance A Sangue Frio de Truman Capote, reeditado pela D.Quixote (e digo reeditado pois ele já existia na Colecção Dois Mundos – Livros do Brasil, no Círculo de Leitores, e em dois volumes na Colecção de Bolso das Publicações Europa-America).
Destacamos duas razões que explicam a importância deste romance: Truman Capote leva seis anos a investigar o crime que o livro relata; o romance inaugura o género não-ficional. Com ele, Truman Capote pretendia criar uma forma narrativa que utilizasse todas as técnicas do romance ficcional, mas que nem por isso fosse menos factual, tentando combinar facto e ficção, sem deixar de lado a imaginação. Os críticos rapidamente aceitaram a classificação, o método e a intenção do autor em combinar jornalismo e ficção. A história foi publicada, em quatro partes, na revista The New Yorker.
Além de narrar o extermínio da família Clutter – uma típica família americana dos anos 50, pacata e integrada na comunidade – o livro reconstitui a trajectória dos assassinos. O autor narra o dia-a-dia da família Clutter, as suas actividades, o seu status junto da comunidade; o planear de toda a actuação por parte dos assassinos; a dedicação dos agentes do KBI (Kansas Burreau of Ivestigation) durante toda a investigação; a captura, o julgamento e a execução dos assassinos. Se por um lado o livro retrata uma família Clutter simpática, querida na comunidade onde estava inserida, por outro, prende a atenção do leitor na figura de um dos assassinos: Perry Smith (o alegado responsável pelas quatro mortes), que é caracterizado como um marginalizado pela sociedade. Truman Capote inclui, de um modo quase integral, textos da irmã e do pai de Perry Smith, do psiquiatra designado pelo tribunal e de um amigo que conta com detalhe a infância de Perry. Truman Capote não deseja que o seu romance seja apenas um relato da tragédia da família Clutter; pretende ir mais longe, levantar questões: poderá um homem ser considerado responsável pelas suas acções, quando todo o ambiente envolvente o negligenciou? É neste ponto que o leitor é confrontado: se por um lado sente compaixão por Perry Smith, devido à sua infância traumatizante e à sua não menos traumatizante vida adulta, por outro, sente repulsa devido à frieza com que assassina todos os quatro elementos da família Clutter.
Durante toda a sua carreira Truman Capote permaneceu um dos mais controversos e geniais escritores norte-americanos. Como todos os grandes livros A Sangue Frio foi a obra que o imortalizou, e também aquela que o consumiu. Como o próprio referiu: «This book was an important event for me. While writing it, I realized I just might have found a solution to what had always been my greatest creative quandary. I wanted to produce a journalistic novel, something on a large scale that would have the credibility of fact, the immediacy of film, the depth and freedom of prose, and the precision of poetry.»
Truman Capote, A Sangue Frio, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1ª edição, 2006, 396 páginas. (Tradução de Maria Isabel Braga do original: In Cold Blood: A True Account of a Multiple Murder and Its Consequences, Random House, New York, 1966)
Estreia
Estreia hoje no TMG a peça de tetro «A Cozinha Canibal», a partir do texto, com o mesmo nome, da autoria de Roland Topor. Esta é a segunda produção teatral do Projec~. A encenação é de Américo Rodrigues e a interpretação de Rui Nuno. A peça estará em palco até ao dia 13 de Janeiro.
Vi ontem um programa na VH1 que me deixou perplexo. Chama-se: I want a celebrity face, ou coisa parecida. As pessoas chegam lá e dizem que se querem parecer com este ou aquele. Hoje eram dois gémeos que queriam ser parecidos com o Brad Pitt. Alegaram que não tinham sucesso com as raparigas e que se achavam feios e que depois das plásticas tudo iria mudar. Houve um que até se declarou a uma rapariga durante as filmagens do programa, embora não tenha sido correspondido. Mas logo afirmou que depois da plástica feita ela pensaria de maneira diferente. Houve ainda tempo para cenas das várias operações feitas: nariz, queixo, maças do rosto, dentes. E finalmente o resultado. Eles pareciam felizes com a mudança, contentes, optimistas quanto ao futuro junto das raparigas e pensando até em seguir uma carreira de modelos. A ideia de Belo, em Platão, está intimamente relacionada com o amor, sendo o Belo sempre de natureza espiritual, estando unido às virtudes morais. Mas nos dias de hoje pouco resta dessa ideia. Todos os dias somos bombardeados com novas dietas, produtos de beleza, novos exercícios que irão impedir que a barriga cresça desmesuradamente, e se não houver dinheiro para pagar tudo isso há o crédito em prime time. O que interessa não é o Belo platónico, é o ter estilo, pois Platão nunca teve que fazer o secundário numa escola onde toda a gente tem um Ipod ou um leitor de Mp3 ou um telemóvel topo de gama, nunca teve que beber cinco shots seguidos de uma bebida com mais de 38º de teor alcoólico para ser aceite no grupo, e nunca foi rejeitado por ter o nariz grande, os dentes tortos, acne. Ah! mais uma coisa: a rapariga, mesmo depois de feita a plástica, disse que não. Mas ele continuou a parecer feliz.
Da salvação
Embora concorde com aquilo que o Henrique aqui escreveu, também quero acreditar que a poesia tem a capacidade de salvar da crueldade, da loucura e do suícidio (embora esta lista, em construção, prove o contrário). Hoje, foram estes versos de João Camilo que salvaram o dia. Aqui ficam.
no horizonte do seu olhar talvez ela se alegre
e terias no dia insignificante servido para alguma
coisa consola-te acredita na felicidade o amor
é se a gente quiser assunto ocupação bastante
Nota: podem ler a totalidade do poema aqui.
Ontem quis fazer o jantar. Decidi-me por um uma massa com um pesto à genovesa. Como nunca consigo encontrar manjericão, costumo fazê-lo com agrião ou espinafre – e fica uma delícia. Mas ontem não: decidi comprar pesto já feito. Não podia ter feito pior escolha. Ninguém conseguiu comer aquilo. O que valeu foi um McDonald’s relativamente perto e não se ficou sem jantar. E o que é que eu aprendi com tudo isto? Manter-me fiel à minha receita de pesto. É que a fidelidade é uma coisa muito bonita. Até na cozinha.
Pânico!

O Movimento Pânico foi fundado em 1962 por Fernando Arrabal, Alejandro Jodorowsky e Roland Topor. Inspirados no nome do deus Pã (símbolo do mundo pagão), influenciados pelo cinema de Luís Buñel e pelo teatro de Antonin Artaud (Teatro da Crueldade), o grupo concentrou as suas actividades na arte performativa e no imaginário surrealista. Tinham como principal objectivo chocar, e, por mais estranho que pareça (ou talvez não), libertar energias negativas e destruidoras como modo de alcançar a paz e a verdadeira beleza. Defendiam, ainda, uma arte que fosse totalmente visceral, praticando um teatro surreal, caótico, livre e aterrorizante. No entanto, o movimento surge como reposta ao surrealismo de então, que começava a ser invadido por tendências comunistas e totalitaristas, em que alguns seguidores não se reviam. Muitos referiram que o movimento desejava instalar a confusão, o caos. Fernando Arrabal, numa conferência em 1998 no Teatro Na Celetnoi de Praga, finalmente respondeu: «Nous ne voulons pas la confusion, la confusion est là.». O movimento foi desfeito em 1973, após Arrabal lançar o livro Le Panique.
Sem mácula de realidade
Dizer que Signo Sinal é o romance menos conhecido de Vergílio Ferreira é assumir que os outros são, quando tal não acontece. Signo Sinal é escrito entre 1975-1979, em tempo de crise: uma revolução expulsara o ditador e a ditadura cuja presença se impôs por quase meio século. A revolução veio sacudir o país de ponta a ponta, alterando a ordem histórico-social e o sistema de poder. A ligação com o terramoto, presente no romance, é por demais evidente: o terramoto veio abalar a terra da condição humana, onde os edifícios fundados por um princípio orientador são apenas ruínas, onde a escola, a igreja, o padre, o professor (representantes das instituições), são já escombros. Assim, as ruínas de um tempo amontoam-se e expulsam o homem da sua morada. Sem rumo, o homem procura a casa que o abrigará. Deste modo, a ruína, em Signo Sinal, é uma característica que percorre todo o romance, onde até as personagens são por ela atingidas. O grotesco é construído sobre a invalidez que marca algumas das personagens: o Coxo, a Muda. Porém, é a ruína ideológica, que mais se sente em Signo Sinal: algo deve ser feito, chega-se a saber o que deve ser feito, mas não há aquilo que o impulsione a fazer. A ausência de orientação, a incapacidade para tentar expulsar uma vida contaminada pelo tédio do quotidiano, são elementos que vêm à superfície e que demonstram ao sujeito, que é o detentor da acção, que o tempo está suspenso. Há ainda a problemática do fim do mundo e da suspensão da história, que acarreta consequências. A mais óbvia refere-se ao plano da organização do texto, tornando-se difícil a formulação de uma ficção, segundo os critérios tradicionais. Signo Sinal instala-se no campo da desordem ideológica, no alarido das opiniões, na ramificação de cada coisa no seu oposto e no oposto do seu oposto, onde existe uma bifurcação furiosa de todas as evidências em verdades e mentiras sem prova e sem acalmia. Vergílio Ferreira, Signo Sinal, Lisboa, Bertrand Editora, 2ª edição, 1990, 268 páginas.
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