1.

Às vezes utilizava palavras que não eram suas para dizer que a amava. Recorria a certas canções que passavam na rádio: ninguém sabe, mas tu tens um sorriso secreto. Ela sabia que ele o fazia. Mas não se importava.

2.

E o vazio tomou conta de tudo.
Nesse dia ao chegar a casa não ouviu a música que costumava percorrer todas as divisões, enchendo-as. Havia antes um silêncio profundo, que feria. Só o seu perfume continuava. Como algo que se pode perder a qualquer momento.

3.

Nua, o seu corpo era uma vertigem, um território desconhecido. E havia ainda o sabor da sua pele, aquela maneira de envolvê-lo com as pernas e apertá-lo contra si.

4.

Chovia.

5.

Ao domingo passam a manhã na cama. Agarrados um ao outro. Em silêncio. Mandam vir a comida do restaurante chinês do fundo da rua. Fazem amor. Só eles existem. São dias felizes, luminosos.

6.

Também sentia a sua falta: a suavidade do rosto depois de fazer a barba, o perfume nos lençóis, o entrelaçar dos pés nas noites mais frias, o aroma a tabaco turco pela casa.